Museu Afro Brasil celebra a história e o acervo da Fundição Zani

Rafael Guirra
Por Rafael Guirra 11 setembro, 2013 20:03

Museu Afro Brasil celebra a história e o acervo da Fundição Zani

O declínio de uma fundição artística carioca, de acervo relevante para a história da escultura brasileira, ganha um forte registro no Museu Afro Brasil, instituição da Secretaria de Estado da Cultura, a partir de 14 de setembro, às 13h. A exposição “O Ocaso de Uma Fundição: Zani – Fundição Artística e Metalúrgica, Rio de Janeiro” conta com 35 fotografias de Maycon Lima, sete esculturas de Amadeu Zani (1869-1944), além de moldes e fragmentos de peças de uma das mais importantes empresas de confecção de obras de arte em metais no país.

Fundador nos anos 20 da fundição situada no Santo Cristo, Centro do Rio, Amadeu Zani é o autor de famosos monumentos paulistas, como o “Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo”, no Páteo do Colégio, e a escultura de Verdi, no Vale do Anhangabaú. Primogênito de uma família de imigrantes italianos, Zani trabalhou por três anos no ateliê de Rodolpho Bernardelli, na capital fluminense, e estudou escultura e desenho em Paris, passando ainda uma larga temporada na Itália, antes de engatar a carreira de escultor, para conhecer as obras-primas da história da arte. No Brasil, Zani se destacou na primeira metade do século XX, deixando patente sua preferência pela arte decorativa.

“Esta exposição une um fotógrafo e o ocaso de uma fundição artística do Rio de Janeiro. Maycon Lima é um jovem fotógrafo que, há tempos, começou um belo projeto de retratos de artistas brasileiros. Ele se tornou um abnegado caminhante, de ateliê em ateliê, fazendo muitos contatos por telefone e alguns outros por indicação de artistas. No mister dessa procura, encontrou a Fundição Zani na Rua Sara, no bairro do Santo Cristo. Tornou-se íntimo daquele espaço e do próprio Amadeu Zani Neto, diretor da fundição que leva o nome do eminente escultor ítalo-brasileiro do Rio de Janeiro”, diz o diretor-curador do Museu Afro Brasil, Emanoel Araujo.

O fotógrafo Maycon Lima afirma que a realização do ensaio foi uma maneira de tentar preservar parte da memória desse lugar. “Sempre tive grande interesse por escultura. Meu primeiro equipamento fotográfico foi adquirido porque eu tinha a intenção de fotografar esculturas e monumentos espalhados por São Paulo”, Lima conta. “Quando conheci a Fundição Zani, em 2012, fiquei bastante comovido com a situação desse local: restos de esculturas, bustos espalhados pelo chão e até mesmo algumas obras de escultores consagrados, quase que em situação de abandono, não fosse pelo esforço de algumas pessoas que ali trabalhavam”, reconhece o fotógrafo.

Grandes artistas brasileiros trabalharam com a Fundição Zani, a exemplo de Ceschiatti, Sonia Ebling, Bruno Giorgi e Humberto Cozzo. Para o curador e escultor Emanoel Araujo, a obra fotográfica de Maycon Lima “representa uma grande metáfora do abandono, do descaso e da incompetência de um país que não sabe e não quer saber do seu passado, da sua história e, sobretudo, da sua memória”. Araujo acrescenta: “Nestas fotografias está impresso o sentimento de alguém que, estarrecido diante dessas impossibilidades, pôde somente registrar, com o seu olhar invertido pela lente de uma câmera, os restos mortais de um grande acervo”.

Num libreto de 1930, “O nosso ambiente artístico ou casos que não acontecem a todos, nem todos os dias e em qualquer lugar”, repleto de críticas ao meio cultural brasileiro, Amadeu Zani definiu sua trajetória e suas opções de escultor: “A minha preferência sempre foi pela arte decorativa. Sinto ou sentia atração por ela, pela arte que enobrece e orna as praças e os palácios, que faz compreender a todos, pela sua participação, a poesia e as belezas dos lugares; que provoca entusiasmos e gozo espiritual, sem talvez se compreender o porquê destas sensações. Infelizmente, eu vivo como peixe fora d’água, vivi onde ainda não se fazem palácios (…) e quando alguma pequena coisa se faz, em vez de se recorrer ao artista, dá-se preferência ao mais barateiro, à oficina de estucador, ou, ao catálogo de fábrica”. Uma visão ácida e ainda pertinente.

SERVIÇO
Exposição: “O Ocaso de Uma Fundição: Zani – Fundição Artística e Metalúrgica, Rio de Janeiro”.
Abertura: 14/09/2013, às 13h
Visitação: até 24/11/2013
Museu Afro Brasil
Endereço: Av. Pedro Álvares Cabral, s/n – Parque Ibirapuera – Portão 10 – São Paulo / SP
Funcionamento: de terça a domingo, das 10h às 17h (permanência até às 18h)
Entrada gratuita
Fone: 55 11 3320 8900
http://www.museuafrobrasil.org.br/

*As informações são de responsabilidade de seus organizadores e estão sujeitas a alterações sem aviso prévio.

Rafael Guirra
Por Rafael Guirra 11 setembro, 2013 20:03


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