Paço das Artes abre exposição de Harun Farocki com obras inéditas no Brasil

Rafael Guirra
Por Rafael Guirra 19 janeiro, 2016 15:08

Paço das Artes abre exposição de Harun Farocki com obras inéditas no Brasil

O Paço das Artes –instituição da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo– inaugura no dia 28 de janeiro (quinta-feira) a exposição Programando o visível com seis trabalhos do artista e cineasta Harun Farocki (1944-2014), cinco deles inéditos no Brasil.

Com curadoria de Jane de Almeida, a exposição Programando o visível tem como objetivo refletir sobre a natureza das imagens do século 21, explorando o deslocamento das imagens captadas por aparelhos ópticos para imagens geradas por computador. Para Priscila Arantes, diretora e curadora do Paço das Artes, é um privilégio receber esta exposição de Harun Farocki, um artista que reverbera as questões do mundo contemporâneo em suas obras com um olhar reflexivo.

A mostra reúne as instalações Paralelo I-IV / Parallel I-IV (2014), Interface (1995) todas inéditas no Brasil além de Catch Phrases – Catch Images / Frases de impacto, imagens de impacto. Uma conversa com Vilém Flusser (1986).

Paralelo I-IV / Parallel I-IV (2014, 16′ + 9′ + 7′ + 11′, cor, som) é um filme-instalação dividido em quatro partes, que aborda a linguagem de jogos para computadores, refletindo sobre trechos de jogos populares. Os filmes são narrados por uma voz ensaística (no caso da montagem do Paço das Artes, a voz é do próprio Farocki).

O primeiro da série, feito em 2012, analisa o estilo da computação gráfica dos games dos anos 1980, que utilizavam somente imagens sem profundidade de campo compostas por linhas horizontais e verticais, próximas ao fotorrealismo. No segundo e terceiro filmes (2014), Farocki investiga as barreiras e as especificidades dos mundos paralelos criados pelos games de animação computadorizada até chegarmos ao quarto filme, último trabalho do artista, realizado em 2014, que tem como protagonistas os heróis dos games, inspirados na Los Angeles dos anos 1940, em imagens pós-apocalípticas e nos filmes de Western. Aqui a violência e as armas perpassam o jogo. “Esses heróis não têm pais ou professores. Eles devem encontrar as próprias regras para seguir de sua própria maneira”, diz Farocki na narração.

Para Jane de Almeida, este último trabalho de Farocki é uma extensão de questões discutidas em seus trabalhos anteriores, marcados pela compilação de filmes. Paralelo investiga as estratégias das imagens dos games de computador “e ao refletir sobre estas novas imagens –que na realidade já têm mais de 35 anos!– Farocki não apenas resgata a reflexão sobre a invenção da perspectiva na construção do universo Renascentista, mas também o debate sobre a fotografia como meio que libera a pintura de sua busca de semelhança com a realidade. Pergunta se o computador desempenhará funções anteriormente assumidas pelo filme que, por sua vez, ficará liberado para outras funções. Arrisca ainda a dizer que os criadores das imagens geradas por computador não querem atrair um “bando de pássaros gregos”, referindo-se a Zeuxis e a ilusão das uvas, mas produzir as criaturas que habitarão seu paraíso”, diz a curadora.

Já a obra Interface (1995, 24´, cor, som) marca a migração do cineasta para o mundo da arte contemporânea e foi pensada como uma “instalação” para duas telas. A pedido do Lille Museum of Modern Art, que financiou a produção, o artista examina seu próprio trabalho numa ilha de edição e investiga o significado de criar um filme a partir de imagens já existentes em vez de produzir novas. Lado a lado duas imagens se relacionam e se complementam enquanto Farocki reflete sobre a natureza das imagens, da criação artística, levanta questionamentos e chega a comparar o artista a uma cobaia de laboratório e a ilha de edição a um laboratório de pesquisa. “O trabalho na ilha de edição pode ser comparado a um estudo cientifico?”, indaga em um dos trechos.

Além disso, o título original Schnittstelle brinca com o duplo significado da palavra alemã, que se refere tanto ao local de trabalho do artista/cineasta: a mesa de edição, quanto à “interface homem-máquina”.

A mostra Programando o visível exibe também o filme-instalação Catch Phrases – Catch Images / Frases de impacto, imagens de impacto. Uma conversa com Vilém Flusser (1986, 13’, cor, som), em que Farocki entrevista o filósofo das mídias Villém Flusser (1920-1991). Farocki pede ao filósofo para fazer uma análise da capa do dia do jornal sensacionalista alemão Bild Zeitung, com ênfase no impacto da relação entre os títulos, os textos e as imagens. Os livros sobre fotografia e imagens técnicas de Flusser influenciaram inúmeras obras do artista/cineasta.

Estes dois últimos trabalhos, realizados anos antes de Paralelo, dialogam com a obra de Harun Farocki, evidenciando sua forma de interrogar as imagens até o limite, independente do meio pelo qual elas são produzidas. Harun Farocki não se deixa seduzir pela imagem nova, produzida pelos novos meios e também não é tomado pelo fetiche das imagens produzidas pelos meios antigos.

SERVIÇO
Programando o visível | Harun Farocki
Curadoria: Jane de Almeida
Abertura: 28 de janeiro de 2016, quinta-feira, às 19h
Visitação: até 27 de março de 2016
Horário: Quartas a sextas-feiras, das 10h às 19h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 18h | Entrada gratuita
Agendamentos de visitas orientadas: educativo@pacodasartes.org.br

*As informações são de responsabilidade de seus organizadores e estão sujeitas a alterações sem aviso prévio.
Rafael Guirra
Por Rafael Guirra 19 janeiro, 2016 15:08


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