Selvática encena, em São Paulo, releitura contemporânea de “Iracema”

Rafael Guirra
Por Rafael Guirra 23 setembro, 2015 12:05

Com texto e direção de Leonarda Glück, o coletivo curitibano Selvática Ações Artísticas apresenta, em São Paulo, em curta temporada de 2 a 4 de outubro, na Sala Arquimedes Ribeiro, da Funarte, “Iracema 236ml – O Retorno da Grande Nação Tabajara”, uma releitura contemporânea da trágica história de amor entre a índia tabajara e seu colonizador, imortalizada no romance-épico-lírico (na definição de Machado de Assis) “Iracema”, de José de Alencar (1829-1877). GRÁTIS.

Na montagem de “Iracema 236ml – O Retorno da Grande Nação Tabajara”, aqui ironicamente transmutado em produto envasado, o texto de José de Alencar encontra vida falante na forma de manifesto literário-teatral. A realidade cultural lírica do início do século XVII, retratada na obra de 1865, é transportada para um atribulado cenário brasileiro atual, pós-industrialização, afetado pelo avanço tecnológico, pelas discussões de gênero e pela velocidade comunicacional que a contemporaneidade suscita. “Durante a pesquisa, questões filosóficas primordiais foram visitadas, em busca de uma identidade nacional singular, e os artistas criadores expressam com exatidão a simbologia da dominação cultural a que estamos submetidos, de uma  identidade cultural brasileira que se constrói com base em permanente amálgama histórica, digerindo a cultura exportada pelas grandes potências mundiais e regurgitando-as já mescladas de cultura popular”, avalia Leonarda Glück.

Por meio de uma narrativa crítica e irônica, a peça desconstrói o romantismo indigenista da obra de Alencar, como forma de questionar a relação entre colonizador e colonizado e a formação da cultura brasileira, seus frutos e desdobramentos através dos tempos. A diretora da peça comenta que “apesar de terem sido os primeiros habitantes do Brasil, para além de todo o processo de colonização, os índios sempre estiveram ausentes da vida social e política do país, ocupando um lugar inferior na hierarquia da civilização branca“.

Ao questionar a legitimidade de uma cultura genuinamente brasileira, a peça se volta para as questões que determinam e perpetuam as desigualdades de gênero, raça e os tradicionais modos de submissão. “A Iracema selvática é uma breve passagem literatura brasileira adentro rumo à cena viva. A imagem da índia brasileira é suscitada pela cor local de um Brasil que mal nasce e já vai morrendo, de doença, escassez, de falta de educação, de falta de amor, de ser roubado, sugado e crackeado”, pontua Glück.

Em meio às várias versões para a virgem dos lábios de mel de Alencar, os artistas selváticos – Patricia Cipriano, Stéfano Belo, Simone Magalhães, Mari Paula, Ricardo Nolasco e Manolo Kottwitz  – fazem, durante o espetáculo, referência a marcos históricos brasileiros, como a Semana de Arte Moderna, passando pelos movimentos Antropofágico e Tropicalista.

Espetáculo multimidia, a encenação dialoga com a cenografia digital do paulistano Danilo Barros (Modular Dreams) e a projeção contínua de vídeos, inspirados nos cenários pictóricos pintados em grandes telas no século XIX.

O espetáculo, de 2014, foi criado com o apoio do Fundo Municipal de Cultura da Fundação Cultural de Curitiba e a circulação, que, além de São Paulo, inclui Rio de Janeiro, Curitiba e Fortaleza, é realizada por meio do Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2014.

SERVIÇO
“Iracema 236ml – O Retorno da Grande Nação Tabajara”
Selvática Ações Artísticas
Datas:
2, 3 e 4 de outubro (sexta a domingo), às 21h
Complexo Cultural Funarte SP – Sala Arquimedes Ribeiro
Endereço:
Alameda Nothmann, 1058 – Campos Elíseos
Tel: 11 3662-5177)
Duração: 1h20
Classificação: 16 anos
Lotação: 50 lugares
Grátis (os ingressos devem ser retirados uma hora antes, na bilheteria do teatro).

*As informações são de responsabilidade de seus organizadores e estão sujeitas a alterações sem aviso prévio.
Rafael Guirra
Por Rafael Guirra 23 setembro, 2015 12:05


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