Com montagem do grupo Caixa Preta, de São Paulo, “Bartleby” chega ao Rio de Janeiro nos dias 11 e 12 de Julho, no Teatro Glaucio Gill

Rafael Guirra
Por Rafael Guirra 5 julho, 2012 18:11

Com montagem do grupo Caixa Preta, de São Paulo, “Bartleby” chega ao Rio de Janeiro nos dias 11 e 12 de Julho, no Teatro Glaucio Gill

Bartleby é um escriturário exemplar que passa a surpreender o patrão advogado com hábitos estranhos, pondo em xeque as relações de trabalho e a insuficiência dos afetos humanos. Sucesso de crítica em São Paulo, com duas indicações ao Prêmio Shell 2008 (melhor atriz e melhor cenário), o espetáculo foi selecionado pela FUNARTE no Edital Prêmio Procultura de estímulo ao Circo, Dança e Teatro 2010, circulando por diversos Estados, chegando agora ao Rio de Janeiro. Serão apenas três apresentações, gratuitas, nos dias 11 e 12 de julho, no Teatro Glaucio Gill, da Secretaria de Estado de Cultura. A programação faz parte da ocupação Complexo Duplo.

A montagem, realizada pelo Núcleo Caixa Preta da Cooperativa Paulista de Teatro, dirigida por , foi buscar na literatura do século XIX material para compor um espetáculo cuja forma e conteúdo estão em intensa sintonia com o tempo e o teatro contemporâneos. Baseado no conto homônimo de Herman Melville (autor do célebre romance Moby Dick) e com adaptação inédita de José Sanchis Sinisterra, um dos maiores nomes da dramaturgia espanhola, Bartleby é um texto ambíguo, polissêmico e de refinado humor, chegando às vezes às raias do grotesco, que desnuda a fragilidade das tramas sociais e subjetivas que asseguram sentido à trajetória humana.

A adaptação de Sinisterra, com tradução de Vadim Niktin, tira de cena as personagens secundárias do texto original e concentra-se na polaridade fundamental da trama: a estranha relação entre o Patrão-Advogado, interpretado por Rodrigo Gaion, e o escriturário Bartleby, vivido por Cácia Goulart. Esta estratégia dramatúrgica, segundo os atores, permite que o jogo cênico e a construção das personagens sintetizem a potência e a poética do texto original. Além disso, amplifica o contraste entre as duas personagens que, construídas sob bases não realistas, subvertem a relação entre amo e subordinado, levando o público a momentos hilários e de reflexão.

No palco, os dois atores evoluem por um cenário impessoal e inóspito, com símbolos ostensivos do aparato burocrático, numa atmosfera monocromática com centenas de pranchetas a guisa de divisórias. Um achado do cenógrafo André Cortez para enfatizar a hostilidade e monotonia em que trabalho e vida do copista se misturam e desenvolvem, num estado patético, solitário e apático.

Prefiro não

Bartleby é um homem sem qualidades. Basta-lhe uma simples frase, pronunciada reiteradas vezes e de forma obstinada, para instaurar uma recusa em fixar-se em uma personalidade estável. “Prefiro não”, a célebre frase desse escriturário taciturno, para se recusar a cumprir as ordens do patrão, desencadeia uma sucessão de acontecimentos tragicômicos. Sem margem para réplicas por parte do interlocutor, a recusa à eficiência de um desempenho burocrático é também uma recusa das negociações ou acordos das relações de trabalho – uma afronta quase silenciosa, que nada quer, não reivindica direitos. E por nada desejar, aferrado a um “não” generalizado, é onde também o absurdo se instaura. Aos poucos, essa resistência pacífica às ordens do patrão se estende à totalidade das relações humanas.

É exemplar que justamente um homem imóvel, petrificado, ponha a trama em movimento e desencadeie uma desterritorialização das linguagens, dos hábitos, dos lugares, das funções, dos hábitos. Contra essa inexplicável resistência pacífica do copista estilhaça-se todo o sistema de normas, valores e referências do seu superior.

Bartleby denuncia, com sua inação inesperada, a doença de uma civilização em que a essência e o sentido de existir se subordinam a desempenhos produtivos e status social, redundando numa desoladora cópia de si mesma. Mas, precisamente quando se recusa a copiar, emerge na figura do copista o paradoxo de uma identidade: de tal modo perplexa de si que, para ser, desobriga-se de atuar.

SERVIÇO
BARTLEBY
Local: Teatro Gláucio Gill
Endereço: Praça Cardeal Arcoverde, S/N, Copacabana, ao lado da estação Arcoverde do Metrô.
Dias 11 e 12 de julho de 2012.
Hora: quarta, às 21h. Quinta, às 18h e 21h.
Entrada gratuita (público deverá retirar o ingresso 1 hora antes do espetáculo).
Informações: (21) 2332-7904
Capacidade: 73 lugares
Classificação etária: 14 anos
Duração: 75 minutos

*As informações são de responsabilidade de seus organizadores e estão sujeitas a alterações sem aviso prévio.

Rafael Guirra
Por Rafael Guirra 5 julho, 2012 18:11


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