Exposição: Arte Sacra Popular – O Contraponto do Despojamento

Rafael Guirra
Por Rafael Guirra 6 junho, 2011 16:01

Exposição: Arte Sacra Popular – O Contraponto do Despojamento

A partir do dia 07 de junho, até o dia 07 de agosto de 2011, o Museu de Arte Sacra de São Paulo abre suas portas para uma exposição de arte sacra popular, o que vem a se constituir em um fato muito significativo pelo reconhecimento que se confere a este tipo de manifestação artística.

Algumas pessoas encaram esta forma de expressão como uma arte menor, sem compreender sua real dimensão. Trata-se de se exprimir através de diferentes vias, pro um caminho próprio.

Para fazer a curadoria desta exposição foi convidada Edna Matosinho de Pontes, que atualmente dirige a Galeria Pontes.

Na visão da curadora, a arte popular é a viva expressão da criatividade do nosso povo. Através da sua fantasia o artista reinventa a realidade, estabelecendo íntima relação entre o real e o simbólico.

Ao contrário da arte erudita, a arte popular é uma produção espontânea na qual não há espaço para o regime de produção formal e acadêmico. Quando algum tipo de transmissão de conhecimento existe, ocorre no máximo informalmente, com um artistaartesão que faz o papel de mestre-iniciador. Na arte popular existe um vasto espaço para a inventividade e para os saberes pessoais e tradicionais. A imaginação é muito mais livre tanto na forma final do trabalho como nos meios que ele inventa para resolver os problemas de como fazê-lo.

Como afirma J. A. Nemer, “há um alto grau de desafio aos cânones tradicionais da atividade plástica” já que esses cânones são conhecidos “senão através de observação superficial”. Assim, a carência de informação aliada a uma curiosidade fértil abre caminho para a criação.

No caso da arte popular de cunho sacro, ela expressa também a devoção religiosa de quem produz ou de quem encomenda o objeto. Dois significativos exemplos disso são as imagens denominadas “Paulistinhas” e os “ex-votos”.

As Paulistinhas são imagens simples, feitas em barro ou em gesso, em São Paulo ao longo de todo o século XIX. As pessoas do povo as costumavam ter em suas casas para devoção. Os ex-votos são representações de partes do corpo humano – pés, mãos, cabeça, etc – usados como forma de veicular este objeto a um pedido ou a um agradecimento por um milagre alcançado.

Muitas das peças que integram esta exposição tendem a exprimir de diferentes modos estas características da arte popular. Como um belo exemplo, temos a imagem de beleza rústica da Virgem com o coração trespassado de setas de Antonio de Dedé, que nos remete ao ambiente rudimentar em que ele vive e aos poucos recursos que dispõe para criar uma figura tão encantadora como essa.

Cada artista-artesão explorará os elementos de que dispõe para expressar sua arte. Mestre Dezinho, criador do São Pedro e do São Francisco, tem o talhe na madeira elegante e inconfundível e influenciou toda uma geração de santeiros no Piauí. Com Bento, outro escultor especializado em madeira, vemos uma leitura bastante diferente para o seu São Francisco, assim como para a Virgem, mas igualmente bela. A procissão de Maria do Socorro ilustra com a delicadeza da costura e do bordado uma das mais profundas tradições do nosso povo. Os presépios têm um inconfundível toque de brasilidade seja ele feito de barro (João das Alagoas), de madeira (Artur Pereira, Miramar e Adão) ou de pintura (Fé Córdula). Antônio Poteiro foi um mestre na arte da modelagem do barro e na pintura, revelando aqui através da Virgem moldada no seu estilo característico e na sua forte e vibrante Última Ceia a sua devoção. O grande erenomado artista José Antônio da Silva, autor desta magnífica Via Sacra, dedicou muitas de suas pinturas à Arte Sacra. O escultor Higino, nos seus anjos e na Virgem policromados, faz uma interessante releitura do barroco mineiro. Tota com suas figuras de cerâmica ao mesmo tempo fortes e delicadas criou toda uma série de santos que remetem ao expressionismo. Willi de Carvalho, o mestre das figuras em miniatura, expressa o espírito de religiosidade e poesia ao mesmo tempo. José Bezerra vive em contato com a natureza, isolado no Vale do Catimbó – PE, de onde retira a madeira para as suas esculturas. Odon Nogueira segue a tradição de Poteiro ao escolher trabalhar com cerâmica criando, porem, um estilo próprio. Costinha segue a tradição dos escultores em madeira iniciada com o Mestre Dezinho, mantendo a mesma elegância no entalhe.

Finalmente, Naninho esculpe na madeira uma das mais lindas representações religiosas, o Espírito Santo.

Esta mostra no Museu de Arte Sacra de São Paulo é composta de autênticas manifestações da criatividade e da religiosidade do povo brasileiro, buscando mostrar mais do que meras expressões físicas, do que simples objetos, mas sim toda a força da alma deste povo.

::: Serviço :::

Museu da Arte Sacra
Endereço: Avenida Tiradentes, 676
Tel.: (011) 3326-3336 / (011) 5627-5393
Quando: (Ter, Qua, Qui, Sex, Sáb e Dom) Acontece de terça a domingo e feriados das 11h00 às 19h00. De 08/06 a 07/08.

Rafael Guirra
Por Rafael Guirra 6 junho, 2011 16:01


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